OS BRASILEIROS E A POLÍTICA
(por Paulo G. M. de Moura, cientista político)
A participação política dos empresários tem características distintas daquelas que marcam a atuação de outros segmentos da sociedade, tais como os sindicatos de trabalhadores e movimentos sociais. Esses últimos fazem pressão sobre parlamentos e o governos através de mobilizações de rua, ocupação de espaços no noticiário para conquistar o apoio da opinião pública e, mais recente, campanhas de propaganda negativa na mídia, em geral pagas pelos sindicatos.Os empresários são pragmáticos e concentram suas atividades diárias na gestão dos próprios negócios. Administrar empresas, especialmente na era da competição global e num país avesso ao empreendedorismo, exige jornadas de trabalho que, não raras vezes demandam o dobro do tempo definido em lei para os trabalhadores. No Brasil a jornada legal é de 44 horas. O risco da ineficácia na gestão é o prejuízo, a recompensa é o lucro. Não existe garantia de estabilidade quando se está submetido à lei do mercado livre. A competição torna-se desigual e mais árdua quando o governo se mete onde não devia, e seleciona ao seu critério, que merece ser beneficiado com o dinheiro surrupiado de todos para beneficiar os amigos do rei.Mesmo assim, no Brasil, a imagem pública do empresariado não é boa. A opulência econômica, aqui, é mal vista, mesmo se conquistada com o suor do trabalho e a exposição ao risco a que se submete o empreendedor. A inveja, a maledicência e a vontade incontida de se apropriar da riqueza alheia são praticados e defendidos como sentimentos altruístas. O lucro é visto com luxúria, pecado, motivo de vergonha. A riqueza conquistada como recompensa legítima pelo exercício de liderança e pela competência é vista como injusta. Justiça, para quem pensa assim, é tirar de quem tem para dar para quem não tem, mesmo que, quem não tem nada faça para merecer ter.Num ambiente assim, os sindicatos e ONGs podem reivindicar o absurdo, mas sempre são vistos como defensores dos fracos e oprimidos. A elite do funcionalismo público, que adquiriu vantagens por meios políticos e desfruta salários e aposentadorias desproporcionais aos da maioria da base da pirâmide funcional do Estado - onde se situa a maioria que trabalha em atividades essenciais sem receber o que merece - freia a reforma da máquina pública para proteger seus interesses imorais. No entanto, essa casta de privilegiados é vista e tratada como porta-voz de todos os servidores públicos a quem os neoliberais querem sacrificar.No Brasil o Estado é visto como pai bondoso cujo bolso sem fundo tem dinheiro nascido do nada para distribuir súditos que melhor souberem se mostrar amigos do rei. A política é vista pelo povo como a arte de arrancar benesses do rei e de seus prepostos políticos. Já os políticos vêem a política como arte de ludibriar o povo, distribuindo-lhes as migalhas do dinheiro público em troca da garantia de ocupação de um posto a partir do qual se apropriam privadamente da riqueza produzida com o suor do trabalho de indivíduos isolados ou organizados em empresas. Partidos políticos, sindicatos e ONGs são agrupamentos de indivíduos espertos que se organizam para assaltar o Estado.A Política como participação dos cidadãos nas decisões sobre o destino da coletividade é enaltecida pela retórica, mas vista como coisa de trouxas pelo próprio povo, que condena a desonestidade dos políticos. Mas, para obtenção de benefícios pessoais, o povo, hipócrita, pratica no dia-a-dia, os mesmo desvios morais e legais que condena naqueles que elege. Agir assim não é visto como cobiça, luxúria ou pecado. A Política vista como defesa e negociação dos interesses legítimos, praticada de forma transparente e na arena pública, é a mal vista. Os interesses políticos dos empresários são tratados como fruto da ganância desmesurada de quem já tem muito. Em todo o velho mundo há fortunas familiares acumuladas como resultado do saque e da pilhagem praticados em nome de Deus, na transição do feudalismo para o capitalismo. Enriquecer assim não torna ninguém merecedor de admiração, ainda que essa acumulação primitiva tenha sido conquistada sob risco de morte nos campos de batalha pela apropriação da riqueza alheia. No Brasil patrimonialista o Estado e a natureza são pilhados por gente que tem aversão ao risco e busca a política como forma de assaltar os cofres públicos para ascender socialmente de forma fácil. E pesquisas de opinião comprovam que o povo é leniente com esse tipo de conduta.Nos Estados Unidos da América o povo admira os "self made men", indivíduos que saíram da pobreza para a riqueza construída pelo trabalho e o espírito empreendedor. Lá o povo costuma eleger ricos para presidirem a nação. Por precaução, cercaram o poder de Estado de salvaguardas constitucionais que visam proteger a liberdade individual dos excessos dos detentores de poder político. E criaram uma legislação antitruste para proteger o direito de competir dos empreendedores, dos excessos dos detentores de poder econômico. Lá, os chamados "pais da pátria" lideraram a luta pela independência e criaram uma Constituição pensando no futuro de uma nação. Livres do absolutismo britânico, os norte-americanos transformaram uma ex-colônia numa união independente de estados voluntariamente federados - territorialmente gigantesca e multirracial na sua composição étnica - na maior potência econômica, política e militar do planeta.Uma nação é fruto do espírito da alma coletiva de seu povo. Mas não há povos nem coletivos se líderes. Grandes nações se fazem com grandes líderes. A história pessoal do ex-presidente Abraham Lincoln é emblemática. De origem humilde, Lincoln viveu de trabalho braçal até conseguir estudar Direito. Antes disso, sabia apena ler, escrever e fazer as quatro operações. Sem acesso a livros, Lincoln estudou a Bíblia, o único livro existente em sua casa. Com 22 anos, Lincoln deixou a casa dos pais para morar na aldeia de New Salem, Illinois, onde conseguiu emprego como balconista no comércio local, e em seguida, como agente postal. Depois de alguns anos elegeu-se deputado estadual e senador pelo estado de Illinois.Ao longo de seu segundo mandato como deputado Lincoln completou seus estudos de Direito, recorrendo ao empréstimo de livros até obter licença para advogar. Durante seis meses por ano Lincoln advogou nos tribunais itinerantes que percorriam municípios de Illinois. Tornando-se conhecido assim, em 1846 Lincoln foi eleito para a Câmara Federal. Sem apoio popular, por fazer oposição ao presidente Polk, a quem culpava pela guerra com o México, Lincoln voltou a advogar sem tentar a reeleição. Voltou à política somente no final da década de 1850, quando, em campanha contra a escravidão disputou e perdeu a eleição para o Senado para o escravocrata Stephen Douglas. Perdeu a eleição, mas ficou conhecido em todo o país, condição a partir da qual concorreu à Presidência em 1860 em meio à construção do Partido Republicano, fundado em 1854.Em 1861 Lincoln toma posse enfrentando o separatismo dos sulistas que ameaçaram retirar seus estados da Federação em caso de vitória de um abolicionista. Onze estados fizeram-no, de fato, formando a Confederação dos Estados da América, mesmo ante esforço consiliador do presidente eleito, que não conseguiu evitar a Guerra Civil. Mesmo tendo perdido as primeiras batalhas e boa parte do seus capital político, Lincoln manteve suas convicções sem recuar, pois entendia que os Estados Unidos da América constiuíam um exemplo emblemático da capacidade de auto-governo de um povo. Quatro anos depois, a um custo de 600 mil mortos, o norte venceu. Em 1862 proclamou a liberdade dos escravos dos estados sulistas, conferindo sentido libertário à guerra civil e encaminhando a abolição deifitiva da escravatura nos EUA em 1865, ano de início de seu segundo mandato. Em 14 de abril de 1865, duas semanas após o fim da guerra separatista, Lincoln foi assassinado. Após sua trágica morte angariou o respeito e admiração do povo norte-americano, firmando reputação de uma liderança construída na luta por causas políticas que fazem parte do "patrimônio genético" na nação que presidiu. Seu ideário, registrado em discursos e textos publicados, integra a biblioteca do pensamento democrático.O Brasil foi colônia de uma das principais potências mundiais do século XVI, ao lado da Inglaterra, que colonizou os EUA na mesma época. Tornamo-nos "independentes" por herança de pai para filho, libertamos os escravos por "bondade de uma princesa", tornamo-nos República através de um golpe de estado, dizemo-nos Federação, mas nossas supostas unidades federadas são subjugadas pelo governo central como se no tempo do Império ainda vivêssemos. Boa parte dos políticos que escolhemos para nos governar se alojam na máquina do Estado para enriquecer rápido e sem trabalhar. Antes isso era monopólio das oligarquias rurais. Hoje é privilégio das oligarquias políticas que controlam partidos, sindicatos, ONGs e fatias do próprio Estado.O cidadão brasileiro Luis Inácio Lula da Silva, ex-sindicalista, é, sem sombra de dúvida, um dos líderes que ocupará a galeria dos grandes presidentes brasileiros. Ex-retirante nordestino, nosso presidente, eleito e reeleito pelo voto da maioria dos brasileiros, saiu da extrema miséria para um lugar privilegiado no estreitíssimo cume da pirâmide social brasileira, visto como um homem do povo, pai dos pobres, "gente como a gente". Um exemplo.
6 de jan. de 2008
ARTIGO DE PAULO G. M. DE MOURA (Casagrande)
às 12:30
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