TV DE ALTA INDEFINIÇÃO
(por Glauco Fonseca)
Até hoje não ouvi uma única explicação minimamente convincente a respeito do que significa televisão pública. É claro que TV estatal nós sabemos para o que serve (e desde já deveria ser chamada de TV governamental). Televisão comercial é o modelo, entretanto, mais evoluído de todos e é, dentre todos, paradoxalmente, o mais público.Televisão pública é alguma coisa que o ministro Franklin Martins não conhece, que a Teresa Cruvinel não tem a menor idéia do que se trata e o presidente Lula pensa que sabe o que é, mas não sabe. É simplesmente um canal de TV que, a princípio, não veicula comerciais e que não é sustentado em seu todo pelos cofres públicos. É um canal de TV como a PBS americana, financiada por ações, programas governamentais e por doações da iniciativa privada, perfeitamente dedutíveis do imposto de renda. É considerada pública também porque ausculta de fato a sociedade organizada, buscando atendê-la em suas demandas culturais, de formação e informativas. Ou seja, antes de colocar algo no ar, a sociedade foi efetivamente ouvida.Lula, José Dirceu (ele mesmo), Franklin Martins et caterva querem uma TV para defender o governo e o PT contra o que eles chamam de "mídia golpista de direita". Querem uma televisão que "equilibre" os fatos primários com outros fatos. Se é fato que o Banco do Brasil foi saqueado em mais de R$ 70 milhões para financiar o mensalão, a TV pública deverá dizer que o mesmo banco, ao mesmo tempo, investiu múltiplos do mesmo valor em coisas boas, que a "mídia reacionária" não noticiou. É como dizer que as abelhas que mataram cavalos, cães e um pato também são responsáveis pelo doce mel nosso de cada dia e que, portanto, as abelhinhas não são assim tão perigosas.Outro aspecto importante a respeito da TV de alta indefinição do governo Lula é o funding. Empresas públicas como Petrobrás, Correios, Caixa e outras serão "convidadas" a comparecer como apoiadoras da emissora, como se isto fosse salvá-la do éter midiático ao qual está fadada. Não foi apresentado à sociedade brasileira um só projeto da estação, uma idéia, uma estratégia sequer. Apenas colocaram-na no ar, como se isto fosse fazer televisão. Boni diria que não. Mesmo assim, esperam audiência, consagração e sucesso. Sem chance. E aí está o grande imbróglio: audiência. Coisa que não se compra nem pode ser objeto de pacto com entidades de qualquer natureza religiosa, empresarial ou sindical. Demanda e talento são as duas essências de se fazer televisão. Depois entra o dinheiro. Se há uma demanda consistente, se temos os insumos básicos para atender e se dispomos dos recursos financeiros para bancar talentos, insumos e demandas, começamos melhor do que por conta de uma estratégia equivocada, que irá se tornar ainda mais errada quanto mais dinheiro puder nela enterrar.Por fim, a TV Lula ainda poderá ter sucesso. Se os números não forem favoráveis, se não for possível montar uma boa programação, Lula e seus amigos podem editar mais uma medida provisória convocando as empresas de pesquisa que deram vitória a Chávez para que meçam o desempenho da estação. E olhe lá.
Publicado em 18/12/2007
18 de dez. de 2007
ARTIGO DE GLAUCO FONSECA = Blog Casagrande.
às 14:59
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